Leonardo Vieira

    • Poemas
    • Sobre

  • Tropel

    Olha, a nuvem preta no céu 
    Esgueirando os olhares do chão
    Chuva que começa a cair
    Limpando o ar do sertão
    Da poeira chutada por pés

    Vem, vem ver o gado beber
    Deixa crescer plantação
    Deixa sorrir o barão
    Que deixa beber os malês
    De águas que rolam no chão

    De nuvens que pairam no céu
    Rolam em contramão
    Desmanchando papéis

    Eis, o tropel do povo outra vez
    Que põe peneiras ao sol
    Quem sacrificou alazão
    Agora persegue a maré

    Chora, enxada que espera de pé
    Encostada naquela estação
    De um dono que partiu
    Sem levar seu coração

    junho 18, 2025
    Observação, Pobreza, Poema, Poema Autoral, Poesia, poesia brasileira, Social

  • Pingos

    Em tempestade coleciono os pingos
    nos baldes e garrafas.
    Não me importo de me molhar.
    Levo estas pequenas chuvas
    cristalinas, e agora calmas
    por entre estradas e túneis.

    Sigo devagar, deixando o rastro de minha jornada seco.
    Com todas as preciosas gotas ainda envasadas.
    No fim do caminho, munido de meus potes,
    enfrento a areia. Penetro o horizonte.
    Rasuras brancas, gaivotas, nuvens
    Todas espelhadas na calmaria,
    E quando enfim a água invade meus tímpanos
    Sei que naquele silêncio circulam
    gotas que apanhei.
    abril 22, 2025
    Autoral, Meta, Poema, Poesia, poesia brasileira, simbolismo

  • Terra sem males

    Quando juntar na fogueira os pelos teus 
    Tingidos de vermelho pela luz
    Não deixe de olhar o horizonte
    E balbuciar algo que só eu conheço.
    Com todos os pássaros e velhos gatos meus
    Na mesma dança juvenil de sempre. O pega-pega da natureza.
    Pense nos amores e seus toques viris, permita-se reviver algum tal
    Amores intensos, olhos vidrados em sua beleza - nunca puídos de chorar.
    E assim se aqueça, em meio a noite, em meio a cidade,
    por entre as montanhas que não há de ver daqui.
    Lembre-se do homem que fugiu só por um instante.
    Amou tua alma e beijou teu rosto, tua tristeza
    Que agora fica, te faz olhar para rua
    E afugentado o homem cintila
    Mais uma estrela, sob teu olhar.

    abril 20, 2025
    Amor, Autoral, Namoro, Poema, Poesia, poesia brasileira

  • Casulos Cinzentos

    A branca flor das favelas 
    E fascínios seus
    Falenas, monarcas e morfos
    Perseguem os morros
    A se afugentar

    Todas criadas por um mesmo deus
    Seguem confusas
    Por flores brancas
    Sem seu olhar,
    Cinzento.

    Por suas costas, sob seu clarão
    Escondem as flores ao sufocar
    Pétalas submersas
    Confundem asas, cores, falenas, monarcas, morenas
    Pétalas de um só enxame a murchar

    Entre galhos e becos
    Morfos pirralhos pecam
    Ao se encasular
    Prendidos aos troncos, perdidos no tempo
    Parasitas, a se transformar

    Galhos põem-se a beber
    Casulos coloridos
    Se acinzentam ao luar
    E no clarão do dia se vê
    Asas brancas, desabrochar.
    março 5, 2025
    Autoral, Poema, Poesia, poesia brasileira, Poesia em português

  • Rodoviária

    Como um ladrão ou malfeitor
    Me esquivo da escura civilização.
    Sempre procurando uma autoridade, com medo.
    Mas evitando despertar-lhe quaisquer suspeitas
    E no terminal sigo a alimentar o orelhão
    Faminto de todas minhas moedas.
    Os mascates vêm me incomodar: vagabundos ambulantes
    Paradoxos. Trabalhando na madrugada por qualquer trocado.
    A conversa demora vir
    As notícias de Farinópolis terão de esperar até a próxima estação.
    Ao menos compartilhamos a saudade e o céu.
    Céu estrelado aqui e lá. Mas aqui, seu cintilar se machuca com o clarão dos postes.
    Iluminando o asfalto às custas dos céus.
    Agora, aguardo meu próximo ônibus.
    Cruzo estados em busca do mar.
    janeiro 23, 2025
    Autoral, Cotidiano, Poema, Poesia

  • Outras Vidas

    Seja refém, meu amor
    Não tentes controlar.
    Que sentimentos geminam
    De mansinho, devagar.

    E quando menos tu esperas,
    Amor, vou te esperar.
    E no teu controle,
    Vais correr, deprimir,
    Vais fugir, eu vou deixar.

    Te esperarei noutra vida,
    Tal qual já tivemos.
    Vivemos, amamos,
    Várias vezes morremos.

    Renovamos, meu amor,
    Meu amor por você.
    Ao reviver sem saber
    Quem és, quem foste,
    Bastaria ser meu.
    Não importa saber o que querias
    Em vidas vividas, vazias, perdidas de você.

    Sem querer controlar
    Teus trejeitos, teu cheiro, teu cabelo,
    Você por inteiro, a me encantar.

    Teu espírito, que tragédia,
    A tragédia que eu queria,
    A rotineira magia
    Ombro a ombro, ao seu lado, de acordar,
    Dia a dia, vivendo todas as vidas.
    janeiro 18, 2025
    Amor, Autoral, Namoro, Poema, Poesia, Social

  • Sonho Lindo

    Uma banheira imensa
    Caberá nós dois, nossos gatos, possivelmente um filho e dois patinhos de borracha.
    Vamos ter uma cristaleira,
    Cadeira mole, falsa, é claro.
    Quadros, cálices, estátuas... Tudo banhado a ouro.

    Vamos ter um carrinho para fazer viagens.
    Vamos aprender a dirigir.

    Eu quero ter assoalho e quero que você pragueje contra seu ruído.
    Vamos ter dois pés de pimenta-dedo-de-moça,
    Ancorados em cada janela.

    Vamos ter pé de jabuticaba, daqueles baixinhos...
    Cheios de cobras falsas para afugentar os tucanos e sua gula.

    Mármore Calacata, deselegantemente revestindo o banheiro inteiro.

    Um quarto cheio de janelas,
    Uma varanda e cama barulhenta
    Para causar inveja nos vizinhos.

    Quero uma cerca baixinha, uma mesa de bétula longa e pesada,
    Um jardim de inverno, com poço de luz.
    Ah, o jardim de inverno!
    Iluminando a Nossa Senhora, toda adornada,
    Uma almofadinha de veludo logo abaixo, para que possamos agradecer o milagre todos os dias.
    janeiro 10, 2025
    Autoral, Casa, Crítica, Desejo, Desejos, Desigualdade, Esperança, Lar, Melancolia, Pobreza, Poema, Poesia, Religião, Residência, Social, Triste

  • Culpa

    O clarão, o som,
    Dar-se conta de que respira o refrescar da manhã.
    Manhã umedecida pela chuva da madrugada.
    O frescor que se confunde ao mentol.
    Enquanto as motos roncam e os carros buzinam,
    Os ovos fritam.
    E dou-me conta de toda a minha sorte.
    Todo perdão e amor,
    Todo esquecimento.
    Não é incrível?
    Ser tão ruim e maldoso
    E ainda assim desfrutar das manhãs mais belas,
    Dia a dia, impunemente.
    Comendo ovos, bebendo café,
    Como sempre aconteceu e há de acontecer.
    Por ofício ou por esporte,
    O sol segue a subir e a manhã a se findar.
    janeiro 5, 2025
    Autoral, Cotidiano, Culpa, Meta, Metafórico, Metáfora, Observação, Poema, Poema Autoral, Poema Brasileiro, Poesia, Poesia em português

  • Beira-Mar

    Para onde quer que eu olhe
    Sempre tem um militar
    Me protege com suas medalhas
    E me persegue em alto mar

    E quando volto à minha praia
    Nem dá tempo de me secar
    Ele confisca as minhas tralhas
    E avisa que eu vou me afogar

    Mar
    Marinha
    Praia, medalha
    Força que não é minha

    Só dá moleque de tocaia
    Esperando eles passar
    É o funk, é o estorvo que se espalha
    É o crime à beira-mar

    Para onde quer que ele olhe
    Certo vai incomodar
    O bedel que põe medalha
    Medalha no peito do militar

    Mar
    Marinha
    Praia, medalha
    Força que não é minha
    janeiro 1, 2025
    Autoral, crítica social na poesia, cultura à beira-mar, força, mar, marinha, medalha, metáforas do cotidiano, militar, oceano, opressão, poder, Poema, Poesia, poesia brasileira, poesia contemporânea, praia, reflexões sociais

  • Admiração

    A admiração se repousa rotineiramente sob minhas roupas. 
    Sempre, sob minhas roupas.

    Tal que meu corpo, ainda virgem de seu toque
    Se transborda de esperança.

    Esperança que isto ainda há de mudar.

    janeiro 1, 2025
    Admiração, Autoestima, Autoral, Beleza, Cotidiano, Observação, Poema, Poesia, Vaidade

Página anterior Próxima página
    • Poemas
    • Sobre
Leonardo Vieira
  • Instagram
  • X
 

Carregando comentários...