Olha, a nuvem preta no céu
Esgueirando os olhares do chão
Chuva que começa a cair
Limpando o ar do sertão
Da poeira chutada por pés
Vem, vem ver o gado beber
Deixa crescer plantação
Deixa sorrir o barão
Que deixa beber os malês
De águas que rolam no chão
De nuvens que pairam no céu
Rolam em contramão
Desmanchando papéis
Eis, o tropel do povo outra vez
Que põe peneiras ao sol
Quem sacrificou alazão
Agora persegue a maré
Chora, enxada que espera de pé
Encostada naquela estação
De um dono que partiu
Sem levar seu coração
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Terra sem males
Quando juntar na fogueira os pelos teus
Tingidos de vermelho pela luz
Não deixe de olhar o horizonte
E balbuciar algo que só eu conheço.
Com todos os pássaros e velhos gatos meus
Na mesma dança juvenil de sempre. O pega-pega da natureza.
Pense nos amores e seus toques viris, permita-se reviver algum tal
Amores intensos, olhos vidrados em sua beleza - nunca puídos de chorar.
E assim se aqueça, em meio a noite, em meio a cidade,
por entre as montanhas que não há de ver daqui.
Lembre-se do homem que fugiu só por um instante.
Amou tua alma e beijou teu rosto, tua tristeza
Que agora fica, te faz olhar para rua
E afugentado o homem cintila
Mais uma estrela, sob teu olhar.
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Casulos Cinzentos
A branca flor das favelas
E fascínios seus
Falenas, monarcas e morfos
Perseguem os morros
A se afugentar
Todas criadas por um mesmo deus
Seguem confusas
Por flores brancas
Sem seu olhar,
Cinzento.
Por suas costas, sob seu clarão
Escondem as flores ao sufocar
Pétalas submersas
Confundem asas, cores, falenas, monarcas, morenas
Pétalas de um só enxame a murchar
Entre galhos e becos
Morfos pirralhos pecam
Ao se encasular
Prendidos aos troncos, perdidos no tempo
Parasitas, a se transformar
Galhos põem-se a beber
Casulos coloridos
Se acinzentam ao luar
E no clarão do dia se vê
Asas brancas, desabrochar.
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Rodoviária
Como um ladrão ou malfeitor
Me esquivo da escura civilização.
Sempre procurando uma autoridade, com medo.
Mas evitando despertar-lhe quaisquer suspeitas
E no terminal sigo a alimentar o orelhão
Faminto de todas minhas moedas.
Os mascates vêm me incomodar: vagabundos ambulantes
Paradoxos. Trabalhando na madrugada por qualquer trocado.
A conversa demora vir
As notícias de Farinópolis terão de esperar até a próxima estação.
Ao menos compartilhamos a saudade e o céu.
Céu estrelado aqui e lá. Mas aqui, seu cintilar se machuca com o clarão dos postes.
Iluminando o asfalto às custas dos céus.
Agora, aguardo meu próximo ônibus.
Cruzo estados em busca do mar.
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Admiração
A admiração se repousa rotineiramente sob minhas roupas.
Sempre, sob minhas roupas.
Tal que meu corpo, ainda virgem de seu toque
Se transborda de esperança.
Esperança que isto ainda há de mudar.