Toda porta range;
Todo galo canta.
Qualquer estrela ou astro brilha e marca o coração.
Sempre atordoado, escrevendo mediocridades
Abobalhado com a lua dia sim e dia também
O poeta cabotino assina muitas poesias.
Além da assinatura, ele tempera
Refoga, assa, salga e reveste seus versos
Com véus e mais véus de clichês insuportáveis;
Sua marca registrada, antes da assinatura, é sua “originalidade”.
Talvez seja bom falar das prostitutas baratas
(Elas ilustram bem o problema)
Elas vendem pacotes e oferecem carnês para caberem em qualquer bolso.
Algumas dessas palavras até dão carência de dois meses para começar o pagamento.
Tamanha sua fatia de mercado que qualquer leitor, mesmo na tenra infância, já as conhece.
Estou falando, é claro, de palavras como "Lancinante", "Taciturna" e “Cálido”
Da preferida do cafetão - “Aviltar”!
Ouvi também que há um super pacote recombobulador especial pague um, leve três
Que muda palavras de boa reputação e estirpe por suas primas distantes - ver vira fitar, vermelho vira escarlate e qualquer remédio, chá milagroso, cataplasma ou mandinga que o valha magicamente se transformará no muito mais audível "unguento".
Ora com trema, ora sem.
Ah, não se esqueça,
Apesar dos pesares, nocivo é um adjetivo honesto e de boa índole.
Eu sei… Infelizmente ele decidiu por natureza ou má criação rimar com lascivo.
Puxa vida, logo lascivo!
Não tem jeito, reserve a vala para os dois!
Ainda abaixo dessa vala metafórica, enterrei também metaforicamente outro costume de quem não tem nada a pensar que valha a pena ser escrito:
Fazer poesia sobre poesia.
Metapoesia autofágica e masturbatória; cansativa e maçante aos olhos alheios.
Um gasto de papel inadmissível que jamais incluiria uma obra de arte disruptiva, crítica e temperada, refogada, assada, salgada e revestida de ironia como esta.
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Poeta Cabotino
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Faladeiro
No clube de arte
Fala-se de arte coisa nenhuma
Fala-se de política,
Fala-se de futebol,
Fala-se de beleza.
Fala-se de beleza como se fosse o clima. Como se fosse o futuro. Como se fosse uma aposta
Fala-se de qual o melhor noivo, qual o pior ladrilho
Qual o rumo da tecnologia e a próximo baliza da linguagem
Discute-se de tudo, de maneira profunda
E de vez em sempre, há trovoadas de inspiração
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Pingos
Em tempestade coleciono os pingos
nos baldes e garrafas.
Não me importo de me molhar.
Levo estas pequenas chuvas
cristalinas, e agora calmas
por entre estradas e túneis.
Sigo devagar, deixando o rastro de minha jornada seco.
Com todas as preciosas gotas ainda envasadas.
No fim do caminho, munido de meus potes,
enfrento a areia. Penetro o horizonte.
Rasuras brancas, gaivotas, nuvens
Todas espelhadas na calmaria,
E quando enfim a água invade meus tímpanos
Sei que naquele silêncio circulam
gotas que apanhei.
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Culpa
O clarão, o som,
Dar-se conta de que respira o refrescar da manhã.
Manhã umedecida pela chuva da madrugada.
O frescor que se confunde ao mentol.
Enquanto as motos roncam e os carros buzinam,
Os ovos fritam.
E dou-me conta de toda a minha sorte.
Todo perdão e amor,
Todo esquecimento.
Não é incrível?
Ser tão ruim e maldoso
E ainda assim desfrutar das manhãs mais belas,
Dia a dia, impunemente.
Comendo ovos, bebendo café,
Como sempre aconteceu e há de acontecer.
Por ofício ou por esporte,
O sol segue a subir e a manhã a se findar.
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Cadernos Ocultos
Ao ver meus cadernos ocultos
Meus escritos privados.
Todos encastelados por trás de uma placa
“Não Abrir”
Indagam-se por que não deixo meu amado ler.
Indagam-se se não confio nele.
Indagam-se, por fim
Se eu escondo algo.
Para estas pessoas.
Reservo-lhes o cadeado.
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Métrica
Se a poesia tem regras,
Eu as desconheço.
Devem estar escondidas no rabo da linguagem.
Eu, sábio como sou, não me aventuro nos anais da língua.
Prefiro ficar nos deleites acessíveis,
Nos orais das palavras.