Quando a guerra acabou
Derreteram-se as armas
Vigas de metal que sustentam o mundo novo
Colheram flores selvagens
Flores de árvores frutíferas, flores de mal-cheiro, flores de mato
Para sepultar os homens engolidos pela terra
Homens de gravatas assinaram papéis
Bateram fotos, apertaram mãos
Compartilharam abraços
Hospitais de campanha desmontados
Sorrisos abertos
Relógios quebrados
Na esperança que o tempo pare
E a história não consiga rimar.
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Quando a guerra acabou
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Tropel
Olha, a nuvem preta no céu
Esgueirando os olhares do chão
Chuva que começa a cair
Limpando o ar do sertão
Da poeira chutada por pés
Vem, vem ver o gado beber
Deixa crescer plantação
Deixa sorrir o barão
Que deixa beber os malês
De águas que rolam no chão
De nuvens que pairam no céu
Rolam em contramão
Desmanchando papéis
Eis, o tropel do povo outra vez
Que põe peneiras ao sol
Quem sacrificou alazão
Agora persegue a maré
Chora, enxada que espera de pé
Encostada naquela estação
De um dono que partiu
Sem levar seu coração
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Outras Vidas
Seja refém, meu amor
Não tentes controlar.
Que sentimentos geminam
De mansinho, devagar.
E quando menos tu esperas,
Amor, vou te esperar.
E no teu controle,
Vais correr, deprimir,
Vais fugir, eu vou deixar.
Te esperarei noutra vida,
Tal qual já tivemos.
Vivemos, amamos,
Várias vezes morremos.
Renovamos, meu amor,
Meu amor por você.
Ao reviver sem saber
Quem és, quem foste,
Bastaria ser meu.
Não importa saber o que querias
Em vidas vividas, vazias, perdidas de você.
Sem querer controlar
Teus trejeitos, teu cheiro, teu cabelo,
Você por inteiro, a me encantar.
Teu espírito, que tragédia,
A tragédia que eu queria,
A rotineira magia
Ombro a ombro, ao seu lado, de acordar,
Dia a dia, vivendo todas as vidas.
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Sonho Lindo
Uma banheira imensa
Caberá nós dois, nossos gatos, possivelmente um filho e dois patinhos de borracha.
Vamos ter uma cristaleira,
Cadeira mole, falsa, é claro.
Quadros, cálices, estátuas... Tudo banhado a ouro.
Vamos ter um carrinho para fazer viagens.
Vamos aprender a dirigir.
Eu quero ter assoalho e quero que você pragueje contra seu ruído.
Vamos ter dois pés de pimenta-dedo-de-moça,
Ancorados em cada janela.
Vamos ter pé de jabuticaba, daqueles baixinhos...
Cheios de cobras falsas para afugentar os tucanos e sua gula.
Mármore Calacata, deselegantemente revestindo o banheiro inteiro.
Um quarto cheio de janelas,
Uma varanda e cama barulhenta
Para causar inveja nos vizinhos.
Quero uma cerca baixinha, uma mesa de bétula longa e pesada,
Um jardim de inverno, com poço de luz.
Ah, o jardim de inverno!
Iluminando a Nossa Senhora, toda adornada,
Uma almofadinha de veludo logo abaixo, para que possamos agradecer o milagre todos os dias.
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Populares
Os interessantes dos populares
São os vagabundos.
Porque se proliferam apesar de tudo.
Vagabundos famintos que constituem famílias.
E vagabundinhos.
Vagabundos, estes, infinitamente analisáveis.
Pois o melhor é que há vagabundos de toda espécie.
Que querem e sabem trabalhar.
Até mesmo os que querem e não podem.
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Conversas Mecânicas
Numa conversa de namorados
Sempre um fala mais que o outro
E o outro ouve mais do que um
Aí as coisas invertem.
O outro ouve mais que um
Enquanto um fala mais que outro
E sempre os dois ao ouvir e falar indagam-se qual posição é a pior.
Ainda pior, é quando se intercalam ouvidas e faladas na mesma medida.
Medidas essas exatas, precisas e justas.
Conversas mecânicas que caminham ao tédio.