É inevitável que, na chegada dos extraterrestres, haja uma comoção.
Televisionada para todos os olhos, a caótica marcha dos alienígenas deixará um rastro sangrento.
Tantas vidas fardadas serão perdidas.
Tantas vidas novas serão cortadas ao meio.
Tantas cidades demolidas.
Os fuzis, bombas, facas e canhões serão inúteis diante de sua superioridade tecnológica.
E como um inseto que pousa no sorvete de uma criança mimada, de camarote vamos observar o engolimento de uma nação.
Então a cena corta. Um homem engravatado nos acalmará.
Está tudo bem. Afinal, os especialistas dizem que aquele país era uma ditadura horrível!
Categoria: Poema
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Extraterrestres
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Niterói
São gotas de mar sobre a praia
São rastros na areia também
Quando a lua nos dá sua graça
Ela dá o que lhe convém
Tão bem. Também.
É o corte da lufa do vento
Calor que nem a noite sabe domar
A hipnose de um canto sereno
Azul profundo da íris do mar
E com febre penso no tempo
Correndo para ela e olhando para trás
Meus passos, cada onda desmente
Minha febre aquece desejo voraz
Satisfaz. Não mais.
E as fendas da lufa do vento
O calor a me cozinhar
Lúcido sussurro sereno
Engulo profundo, a íris do mar
Então fico
Neste doce calor a sonhar
Com carícias do sol, e brisa de mar
Ternuras se raiam, não se dorme ninguém
Se afobam suspiros, adivinha por quem?
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Sapatos
Compadres, vamos celebrar
Apenas hoje, permitam-se. E a cada gole do champagne, planejem suas próximas vigarices
Foram doze meses de antecipação
Sujando os sapatos
Encolhendo-nos a cada lavagem e calçando-nos;
Basta cupinchas, não mais!
Doze prestações de nossas vidas!
Merecemos hoje calçar um sapato novo!
E no findar da contagem, ao som da primeira explosão
Enlamaçaremos sorridentes vossos sapatos
Com uma promessa falsa!
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Devoto Cristão
Mesmo que venham dos infernos
Os pecados mortais
Enroscam-se os terços e os derretem
Prazeres quentes demais
Depois de meros três trimestres
A mão já não peca mais
Nervos a gotejar
Empoçam profundos desejos.
Hora inocente e pura prole
Esconde um alçapão
E com sua moleira mole
Chupas religião
De dez em dez passam-se os invernos
Sem curtir o verão
Postos a celebrar
Culpam pecados alheios.
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Outros dias
Que fazer com cada esquina
Com cada vício, corpo errante
Que não exige fidelidade?
Com cada hálito de cada dia
Mesmo o ar que suspiro
Já foi um dia um trago seu?
Se bebi teus medos aos poucos
Sem vômito, nunca
Por que deixei o mapa de minha casa
Entre seus lençóis?
Nas madrugadas, ainda sou dono
Pleno meu? Sem deixar nenhum resquício
que já foi meu? Sozinho sou dono de uma vida
para gastar com que?
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Inseticida
A quem devemos culpar por tanta miséria?
Por tanta chuva que abunda nas plantações e afoga toda planta e praga?
As crianças bichadas
Que engolem moscas
De lábios finos, olhos caídos e pele negra?
Seria um crime promover a elas uma migalha
De pão, de esperança ou filosofia?
Será mesmo tão fácil borrifar o inseticida
Para que fujam
Qual em plena ausência sejam esquecidas
Mas a culpada é a chuva
Torrencial e periódica
Purifica o chão do veneno
E deixa brotar as pragas.
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A paratusa da espoleta
A paratusa da espoleta
Só convidava especialistas
Mesmo os especialistas discordavam entre si - afinal os especialistas não eram entendidos de tudo.
Ou eram eles entendidos de paratusas, ou eram eles entendidos de espoletas.
Assim ficou o ano inteiro:
De debate em debate, foi-se aprendendo cada vez mais sobre a paratusa da espoleta.
Até que para a iluminação de todos chegou um leigo, e logo apontou um erro crítico!
Era claro, óbvio! Não era paratusa da espoleta coisa nenhuma!
Era a PARAFUSA da espoleta!